domingo, 13 de outubro de 2013


MEIA NOITE


Meia-noite, hora que apavora os cobardes, já me encontro no local combinado. Não me recordo de ter visto um outro céu tão bonito. Saí do carro e encostada, deliciei-me com a belíssima tela que aquela noite pintou para mim. O vento era acariciante, e soprava-me no pescoço como se me tentasse seduzir... Emociono-me a olhar para o céu ao notar que todas as estrelas vieram assistir ao nosso encontro. Esta ideia deixou-me nervosa. Ainda não tinhas chegado. Surges tortuosamente devagar. Estavas a observar-me. Em pensamentos agradeço ao vento por estar a brincar com o meu vestido fazendo com que balanceie e marque a minha silhueta. Acertei no vestido. Tecido fino leve modelito nem largo nem justo, a medida certa para o meu aliado (o vento) revele e esconda a acentuação das minhas curvas. De vez em quando, o atrevido do meu aliado, fez subir o vestido revelando as minhas coxas, e seguro-o com as mãos uns segundos e só o solto depois. Cada vez mais próximo de mim, sinto o meu estomago a contorcer. A menos de um passo do meu corpo, perdemo-nos no nosso olhar. Afastaste os meus cabelos rebeldes empurrados pelo vento dos meus lábios, onde te perdeste por segundos, devolvendo o teu olhar para as janelas da minha alma. Que olhar intenso. Não me recordo de alguma vez ser vista daquela forma. O teu olhar emocionou-me, percorreste a minha alma e surpreendentemente não tive medo. Tu viste-me. Alcançaste-me. Suave, intenso, quente, sedutor assim foi o nosso tão desejado beijo. Os teus lábios nos meus, o teu coração a pulsar contra o meu peito fez com que deixasse de sentir o chão, o vento… tudo o resto. Se este momento fosse uma cena, apenas nós dois estávamos em primeiro plano. Desacelerámos o ritmo das nossas bocas insaciáveis, diminuímos a temperatura do corpo e deitámo-nos sobre o capot do carro, lado a lado a contemplar as estrelas e no mesmo pensamento continuámos a realizar as cenas seguintes com a assistência das estrelas.
Estavam tão acesas como os nossos corpos. A firmeza deste desejo, confirmada pela longa conversa compenetrada que os nossos corpos tiveram enquanto nos uníamos pela boca, fez-nos adiar aquele momento que acabará por acontecer…

segunda-feira, 30 de setembro de 2013




Foi num qualquer beco perdido desta cidade que o nosso olhar se cruzou pela primeira vez, desde ai fiquei num beco sem saída prisioneiro do teu corpo da tua alma. Foi numa destas ruas onde me perco nas noites frias que senti o calor do teu beijo. Foi nesta cidade despida de sentimentos que vesti a minha pele com a tua. Cigana de má fama, leste-me a sina e descobriste que o meu fado era o teu. 

Francesca Bruni

Ne Me Quitte Pas - Maria Gadu

domingo, 29 de setembro de 2013

PORQUE ME APETECE



Havia a pele para me convencer de que existias, e quando te tocava encontrava também a prova da existência de Deus.A saudade existe para me mostrar a pequenez da morte, porque depois de te perder só a certeza da extinção me descansa, e nada magoa mais do que olhar para a vida e não te descobrir. Gostava de definir a imortalidade como se não fosse a presença de ti na mortalidade de mim, passo o dia a tentar planos alternativos, manobras que me divirtam a dor, e à noite quando me deito juro que tento evitar o teu cheiro a tudo nos lençóis vazios. Não pode acontecer a vida se deixaste de me acontecer, acontece apenas a respiração, a obrigação, os passos que nem preciso de ter vontade para conseguir dar, porque até o que é mau deixou de ter razão de ser por não poder digeri-lo junto a ti, e não há a quem contar que te amo como umlouco se não estiveres aqui para te amar como um louco.A loucura maior é seres a minha sanidade, precisar de ti para não cair no inepto mim, na incapacidade de aguentar o que contigo era mera vida. O segredo do amor é transformar a mera vida, fazê-la vida maior, e até um dia comum é inesquecível quando se faz contigo.Ou voltas para mim ou mato-me para sempre, não com armas, não com venenos ou suicídios estéreis, apenas assim, todos os dias, a viver a nossa morte, lentamente, como se todo o sentido da vida fosse de mim para ti. Se regressares traz-me contigo. 







Pedro Chagas Freitas